Meus Livros
Sobre fotos

Os dois deitados na grama, e ele olhava a foto que tinham acabado de tirar.
— Eu queria poder parar o tempo agora.
— Mas você já fez isso tirando essa foto.
Ele analisou melhor.
— Não, mas a gente congelado assim é triste, meio melancólico.
— Mas de qualquer jeito seria, a vida só tem graça mesmo porque ela não para.
Ele guardou o celular no bolso e ofereceu o braço como travesseiro. Reparando bem, os dois podiam notar o movimento quase imperceptível das nuvens lá no alto.

-e.lisitsa

Sobre pena e bico

— Pai, por que a gente não voa?
— O que você acha?
Ela pensou.
— Porque a gente não tem pena e bico!
— Isso, acertou de primeira — ele sorriu.
A menina, satisfeita, correu novamente para o parque. Uma senhora ao lado do pai não conseguiu (não quis, na verdade) evitar de ouvir a conversa.
— Moço, desculpa, mas você devia ensinar a verdade, tadinha.
— Ensinar? Ela já sabe de tudo! Nós adultos é que desaprendemos a maior parte no caminho.

-e.lisitsa

Sobre legado

A casa lotada de gente e eu, de tão deslocada e diferente, pensei:
Eu não vou dançar, e este será meu legado.

e.lis.

Sobre ciclos

— Quem é você?
— Sério? Eu sou seu coração figurativo. Foi você mesmo que me chamou, caramba.
— Ah, claro. É só que eu gosto dela de verdade, sabe? Você pode me ajudar a decidir se eu devia chamá-la pra sair?
— Eu? Rá, boa.
— Hein?
— Olha, eu não ligo para o quê ou para quem você liga, certo? Meu trabalho é simplesmente pegar as coisas que você não gosta e fazê-las parecerem muito importantes. Então eu pego as coisas que você gosta e as faço parecerem tão inalcançáveis que você para de gostar delas, aí eu pego estas e faço elas parecerem muito importantes também. Eu chamo isso de O Incrivelmente Divertido Ciclo de Ansiedade.
Ele suspirou e voltou para a cama.

-e.lis.

Sobre sinceridade

— Ou.
— Quê?
— Eu te amo.
— Idiota.
— Hein?
— Não se fala uma coisa dessas assim.
— Assim como?
— Com sinceridade.

-e.lis.

Sobre crimes


Era o crime perfeito. 

a arma seria destruída;

o corpo escondido para sempre;

documentos queimados;

impressões digitais apagadas;

frequência da polícia monitorada;

um voo só de ida marcado para o dia seguinte;

isolamento sonoro para não alarmar os vizinhos;

sapatos envoltos em plástico.

Era o crime perfeito.

Só precisava de uma vítima.

e.lis.

Sobre gramas

— Tão bom sentir meus dedos na grama molhada! E sabe o que é mais impressionante? É pensar que bilhões e milhões e milhares de anos se passaram, do nascimento de estrelas aos planetas, e em um destes pedaços de rocha uns pedacinhos ainda menores de nada viraram plantas e animais, e criaram um cérebro para que eu pudesse agora sentir meus dedos na grama molhada e sorrir.
— Senhor, tá falando com quem?
— Ahm.
— Pode sair daí, por favor? Tem uma placa pedindo pra não pisar na grama.
— Ah, foi mal.

- e.lis.

Sobre raios de luz

Eu estava fundo no oceano, abraçado pela escuridão, quando finalmente decidi olhar para cima. Eu era um caso perdido, conjunto de átomos sem importância, mas mesmo assim os raios de luz dançavam para mim — procurando, seduzindo. Minhas mãos se desligaram da minha alma e eu respondi com um aceno. Simples assim, eu também estava dançando, apaixonado pelo Sol.
'Me leve com você,' eu disse, mas meus pulmões já estavam cheios de água.

e.lis.

Sobre disfarce

— Você hoje tá meio morto.
— É cansaço. O que eu mais faço ultimamente é me fingir de vivo.

Sobre combustível

Eu era fogo e você água.
Eu virei cinzas e você alcançou o céu,
liberta.

e.lis

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