O duelo de pistolas iniciou-se em dez passos. O primeiro girou e firmou a mão. Hesitou por um segundo, pois o segundo ainda olhava para o outro lado.
— Ei, o que você tá fazendo?
— Espera um pouco.
— Que foi?
— Eu tô com medo, tá? Eu não consigo me virar.
— Mas, e então?
— Desculpa, eu não consigo. Pode atirar, eu não ligo.
— Eu não vou atirar pelas costas.
— E eu não consigo virar de frente.
Ambos coçaram a testa.
— Um empate?
— É o jeito.
Os dois desistiram de suas armas e caminharam na mesma direção.
— Filha, tá fazendo o quê aí, olhando pra cima?
— Tô procurando minha nuvem.
— Hein?
— Ontem eu tava aqui e escolhi uma nuvem pra mim, tô esperando ela passar de novo.
— Mas filha, uma nuvem não…
A menina olhou aflita para o pai.
Ele pensou bem e se deitou ao seu lado.
— Tá fazendo o quê, pai?
— Uai, vou esperar com você, quero ver como é sua nuvem.
Os dois sincronizaram os braços atrás da cabeça e contaram as nuvens enquanto passavam.
A menina terminou por achar uma mais simpática do que a do dia anterior.
— Filha, tá fazendo o quê aí, olhando pra cima?
— Tô procurando minha nuvem.
— Hein?
— Ontem eu tava aqui e escolhi uma nuvem pra mim, tô esperando ela passar de novo.
— Mas filha, uma nuvem não…
A menina olhou aflita para o pai.
Ele pensou bem e se deitou ao seu lado.
— Tá fazendo o quê, pai?
— Uai, vou esperar com você, quero ver como é sua nuvem.
Os dois sincronizaram os braços atrás da cabeça e contaram as nuvens enquanto passavam.
A menina terminou por achar uma mais simpática do que a do dia anterior.
Ele era viciado no prazer da paixão recente, e sempre acordava com a ressaca da decepção. E de novo; e de novo. Ficou tão mal que teve que se internar em uma clínica.
Lá dentro lhe apresentaram um espelho, e explicaram o prazer de se apaixonar por si mesmo - porque, ao acordar, ele estaria sempre ali.
- Olha lá - ele aponta para cima.
- Onde? - ela segue seu dedo.
- Aquelas duas estrelas estão separadas por um monte de anos-luz, mas nós estamos tão longe que elas estão quase se tocando.
- Que triste…
- Por quê?
- Eu queria estar ainda mais longe. Por elas.
- Por que você tinha que morrer?
- Bem, basicamente porque você me matou.
- Mas eu não podia viver sem você.
- E aqui nós estamos.
- Era impossível viver com você.
- Pois é, e aqui nós estamos.
- E agora?
- Os mortos podem morrer de novo?
- Sei lá, por quê?
- Eu estava aqui querendo retribuir o favor.
Os dois caminhavam abaixo do sol duro do deserto. À vista, só azul e amarelo. Depois de outro passo cansado, um deles sentiu algo tocar-lhe a bochecha.
- Que isso, uma pétala?
- Parece que sim.
O primeiro olhou para todos os lados. Azul e amarelo.
- Mas de onde isso veio?
O outro deu dois passos para frente e sussurrou:
- Obrigado.
- Tá maluco? Ninguém vai te ouvir.
- O vento carrega, o mesmo que trouxe a pétala até aqui.
Ele estava flutuando em água salgada, o Sol tornando branco o vazio de seus olhos fechados. Ele até tentou sorrir. Os dentes se esconderam quando ouviu uma voz. Era a voz dela!
Os olhos abriram e o Sol o cegou. Seu corpo não flutuava e o desespero tomou conta de seus membros. O nariz estava bloqueado e apenas tinha a boca para respirar. Para gritar.
- Por quê?
- Você fez isso.
O gosto do sal ficou mais forte.
- Eu não quero morrer, não quero afogar.
- Então pare de lutar e chorar, e a água irá descer.
Decidido a morrer, ele pisou fundo em linha reta, ao longo da avenida tingida de vermelho pelos semáforos.
Passou pelo primeiro e nada.
No segundo também, ninguém vinha em outra direção.
No terceiro semáforo, por pouco não aconteceu, mas o outro carro freou a tempo.
Dois segundos antes do quarto, este ficou verde.
Desistiu, não era para acontecer.
Um piscar de olhos depois deste pensamento, um carro ignorou a luz vermelha do outro lado e o acertou em cheio.
O impacto foi fatal.