Meus Livros
Enquanto ela se ajeitava no sofá sem enchimento, com uma dobra errada no encosto, com um calo embaixo que deixava o quadril torto para o lado esquerdo, a lateral bem abaixo das costelas pressionando o que ela pensava ser o fígado, enquanto o pé formigava porque ela não conseguia apoiá-lo no chão, afundada que estava no buraco do sofá, ela olhava para cima e se perguntava por que sempre procurava conforto nos corações mais desconfortáveis.

Vidas inacabadas #17

— e.lisitsa

Sobre astronautas

O primeiro contato humano com vida extraterrestre não foi uma invasão, pelo contrário. Quando os astronautas, depois de comprovarem que era possível viajar anos-luz em minutos-sombra, pousaram no pequeno planeta esverdeado e se depararam com uma civilização perfeita, em harmonia com o mundo e entre seus trilhões de habitantes.
Todos vieram com curiosidade, os nativos daquela terra. Observaram o homem e o homem os observou.
Isto sim, o astronauta disse, isto sim é um passo para a humanidade.

— e.lisitsa

Seu pai sempre afirmava não conseguir dormir. Quando ela era criança, ele explicou que girava de um lado para o outro na cama, e o movimento acelerava o cérebro.
Não é que faz sentido? — ela pensou. Sem nunca antes ter dificuldades em cair no sono, ela não conseguia mais frear seus pensamentos. É que a cama não tinha todo esse tamanho, e com duas pessoas nela era impossível se mexer tanto.

Vidas inacabadas #73

— e.lisitsa

Sobre árvores

De longe, os fogos de artifício eram apenas copas de árvores coloridas, no segundo em que existiram. As folhas caíram, se apagaram na noite, e a árvore morreu. Frágil e instantânea como a vida.
O som veio depois, e eu fui o único ouvinte.

— e.lisitsa

Sobre paredes

Foi só parar uns segundos e notar o morrer do Sol na parede do meu quarto para perceber o espetáculo que eu perco a minha volta.
E foi só eu me perder para fazer parte da plateia.

— e.lisitsa

Sobre diálogos

Você voltou.

Eu disse que voltaria.

Você diz muitas coisas.

Todas relacionadas a você.

Lembra-se de quando nos conhecemos?

Era julho.

Era julho.

Esta cadeira está ocupada?

Não.

Desculpe…

Eu sei.

É que não pude deixar de notar.

Meu livro?

Meu preferido.

Não.

Em que página está?

Oitenta e quatro.

"Quem é você?" Perguntou Sofia.

Você errou.

Página errada?

Não existe Sofia.

Foi julho.

Sim, julho.

Foi errado mentir.

Eu já estava encantada.

E agora?

Você voltou. O encanto não.

Ele guardava as recordações do tempo em que estavam juntos em uma gaveta cheia de praticidades da sua vida. Era a sua faca de cozinha sem cabo, enferrujada, que ele resistia em descartar porque nenhuma outra lhe cortaria a pele com a mesma facilidade.

Vidas inacabadas #22

— e.lisitsa

Sobre espetáculos

Nessas horas eu me sinto como uma estrela, cada palavra saída de minha boca em onda estreita se alonga para aquecer quem estiver por perto. Tento capturar suas órbitas. Eu me desespero. As palavras consomem meu núcleo aos poucos e atravessam a nuvem de poeira ecoando gritos roucos por ajuda. E não é divertida a natureza humana? Nós explodimos em luz para tentar um segundo de espetáculo, para nos ver dissiparmos em um infinito de escuridão.

— e.lisitsa

Sobre receitas

Escrever às vezes parece aquela receita que não te impressiona de início, e você não percebe que a culpa foi da falta de novidade após provar o molho treze vezes.
Decepcionado, você guarda no congelador, espera uma semana, e mesmo requentado você acha o melhor molho do mundo.

— e.lisitsa

Sobre flechas

Enquanto todos se juntaram em ambos os lados, dois grupos separados, ela se manteve lá no meio
sozinha
braços abertos.
Ela era a única com ar para respirar, e grama para sentir com os pés descalços. Ela era a única disposta a ouvir as vozes através do vento.
Mas ela estava lá
sozinha
braços abertos
assistindo as flechas voarem sobre sua cabeça para alcançar o lado oposto do campo.

— e.lisitsa

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