Sobre pele dura

Melhor os pesadelos que estes sonhos tristes sem medo que formam anéis em meu universo noturno, quando cada homem soturno com palavras iluminadas me faz duvidar do que quero. Não estou triste, fato, ainda assim me desespero.

Não tenho medo de significados, se minha vida se dignifica ou se a faca fica afiada em pele dura. Sinto amargura, sim, de saber que tais sonhos são parte de mim tentando fazer minha vida soar melhor; e que eu possa dormir para, como canção sabida de cor, repetir o ciclo.

Sobre olhares

Se olhar para cima é sinal de humildade eu queria, de verdade, um mundo de cabeça para baixo.

Que pena, porém, que muita gente olharia com o mesmo desdém para as estrelas.

Sobre rodas-gigantes

Enquanto eles desciam na roda-gigante, esperavam que tudo pudesse ser como antes, quando tinham a expectativa de chegar lá no alto.

Sobre respirar

Você tenta controlar tanto sua inspiração que esquece de expirar. É ótima a sensação de hiperventilar, mas depois disso você perde a força e a vontade.

Sobre moscas

Enquanto inspecionava nuvens pela janela, vi uma mosca, bem na dela, em sua bravata contra o vidro. Divertido, pensei no quanto era boba aquela cena: a mosca que, de tão pequena — que pena -, não entendia aquela parede invisível. Como um ser pode ser tão ignorante e não perceber que, dois metros para o lado, tem uma abertura para fora de seu mundo desesperado?

Mas ela é tão pequena, como saberia?

E ali ignorava as nuvens quando me perguntei: e se conosco acontece o mesmo, como saberíamos?

Sobre duelos

O duelo de pistolas iniciou-se em dez passos. O primeiro girou e firmou a mão. Hesitou por um segundo, pois o segundo ainda olhava para o outro lado.

— Ei, o que você tá fazendo?

— Espera um pouco.

— Que foi?

— Eu tô com medo, tá? Eu não consigo me virar.

— Mas, e então?

— Desculpa, eu não consigo. Pode atirar, eu não ligo.

— Eu não vou atirar pelas costas.

— E eu não consigo virar de frente.

Ambos coçaram a testa.

— Um empate?

— É o jeito.

Os dois desistiram de suas armas e caminharam na mesma direção.

Sobre nuvens

— Filha, tá fazendo o quê aí, olhando pra cima?

— Tô procurando minha nuvem.

Hein?

— Ontem eu tava aqui e escolhi uma nuvem pra mim, tô esperando ela passar de novo.

— Mas filha, uma nuvem não…

A menina olhou aflita para o pai

Ele pensou bem e se deitou ao seu lado.

— Tá fazendo o quê, pai?

— Uai, vou esperar com você, quero ver como é sua nuvem.

Os dois sincronizaram os braços atrás da cabeça e contaram as nuvens enquanto passavam. 

A menina terminou por achar uma mais simpática do que a do dia anterior.

Sobre ressacas

Ele era viciado no prazer da paixão recente, e sempre acordava com a ressaca da decepção. E de novo; e de  novo. Ficou tão mal que teve que se internar em uma clínica. 

Lá dentro lhe apresentaram um espelho, e explicaram o prazer de se apaixonar por si mesmo - porque, ao acordar, ele estaria sempre ali.

Sobre gargantas

Muitas pessoas tem dificuldades com suas palavras - estranguladas por mãos fantasmas. Gargantas arranhadas de tanta parede entre elas e a maioria dos ouvidos. Anos vividos que são cruéis para o azul ou castanho de seus olhos, com sequência sem tamanho de buracos negros roubando luz. Elas esperam por algo, até que este algo revela-se arrependimento; então elas desistem, por não voltar para dentro as palavras desperdiçadas ao vento.

Outra voz morre. Aquelas mesmas, monótonas, ecoam pela eternidade.